Pacientes com Hipertensão Arterial Pulmonar, quando diagnosticados, são classificados quanto ao nível de gravidade da doença de acordo com o perfil sintomático. As classes funcionais (CF) da HAP são quatro, sendo a classe I a menos grave e a classe IV o estágio mais avançado da doença. Essa definição segue as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), que foi adaptada para HAP a partir da classificação para Insuficiência Cardíaca Crônica, elaborada pela New York Heart Association (NYHA).
De acordo com um estudo francês de prevalência da HAP, 75% dos casos são referentes às classes III e IV, sendo, portanto, 25% de classes I e II. E dentro deste percentual de 25%, a CF I, em virtude dos sintomas leves e comumente confundidos com outras doenças, ainda é pouco diagnosticada. No caso da Classe Funcional II, o perfil levemente sintomático com pouco comprometimento das atividades físicas diárias se evidencia e propicia o diagnóstico de forma mais precoce e efetiva.
A importância de se iniciar o tratamento nos estágios mais precoces da HAP, por se tratar de uma doença de rápida progressão, pode ser corroborada pelo Estudo EARLY, publicado no jornal The Lancet, em 2008, realizado exclusivamente com portadores de HAP em CFII. Neste estudo, durante o período de 26 semanas, 80 pacientes foram submetidos ao uso da bosentana e 88, ao uso de placebo (medicamento sem o ativo químico). “Esse estudo foi o primeiro a mostrar que pacientes em CFII que não utilizaram nenhum tipo de tratamento apresentaram uma piora hemodinâmica, por conta da progressão da doença. Dessa forma, o início do tratamento de imediato é importante para impedir que a doença progrida”, afirma o pneumologista do InCor-USP, Dr. Carlos Jardim.
Este ensaio clínico multicêntrico (com participação de pacientes de vários países), randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, se destaca por apresentar diferenciais científicos com relação ao estágio II de HAP. “O EARLY é o único estudo desenvolvido exclusivamente para avaliar pacientes em Classe Funcional II. Ele demonstra que os pacientes neste estágio de gravidade da doença, quando não tratados, evoluem rapidamente para uma piora clínica, sendo que, dos resultados apresentados, 13% dos pacientes que faziam uso de placebo pioraram para as classes III e IV no período de 6 meses, e comprova que a bosentana também é eficaz para pacientes em CFII”, analisa o Dr. Renato Maciel, coordenador da Comissão de Circulação da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.
A bosentana, que já era aprovada para o tratamento de HAP nas Classes Funcionais III e IV, recebeu, em abril de 2009, a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) para utilização também em pacientes CFII.
No Estudo EARLY, o tratamento com bosentana foi associado a uma incidência menor de piora da classe funcional em comparação ao placebo. Isto significa que o grupo submetido ao medicamento não apresentou agravamento dos sintomas e alteração de classe funcional no período da pesquisa. Considerando que a melhora da classe funcional é um dos principais objetivos do tratamento para pacientes com sintomas mais graves, a estabilização do estágio de gravidade da doença é um importante resultado no tratamento de hipertensão pulmonar.
Do total de pacientes submetidos ao uso da bosentana, 57% (43 pessoas) declararam ter percebido uma melhora em seu estado de saúde. Isto indica que o tratamento com bosentana está associado a um efeito clinicamente relevante e que pode ser observado pelos pacientes em suas atividades diárias. “Este medicamento foi o único a ser testado especificamente para CF II. Por isso, há um embasamento científico para que os pacientes nesta fase inicial da hipertensão pulmonar recebam bosentana na tentativa de prevenir o agravamento da doença”, enfatiza Dr. Jardim.
Segundo o EARLY, a bosentana exerce um efeito na hemodinâmica, verificado a partir dos parâmetros aferidos pelo cateterismo cardíaco direito, e também influencia em um melhor resultado no teste de caminhada de 6 minutos (6MWD). Por conseguinte, também se constata uma redução nas concentrações plasmáticas de NT-pro-BNP (peptídeo natriurético encefálico), indicativo que serve como marcador de sofrimento do ventrículo esquerdo – quanto mais alto, maior o sofrimento do coração e pior o prognóstico do paciente.
O Estudo EARLY conclui que a bosentana está associada a melhoras na resistência vascular pulmonar (RVP) e ratifica que o medicamento é responsável por um retardo significativo no tempo de piora clínica. “O fato comprovado pelo Estudo EARLY de que a HAP em CF II pode progredir rapidamente no paciente sem terapia dirigida ressalta a importância de um diagnóstico precoce. Sendo isto realidade, talvez no futuro possamos já estar preocupados em tratar pacientes em CF I, o que seria muito bom, pois os pacientes nas classes iniciais têm chances de sobrevida maiores do que os que iniciam o tratamento nas classes mais avançadas”, prevê otimista o Dr. Maciel.
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